segunda-feira, 22 de junho de 2026

Andar como as nuvens andam

 Andar como as nuvens andam

Movimento inacabado
Ação inútil
Percorrer os caminhos que levam ao topo
- como cobras -
Para lá nunca chegar
Empurrar o barco
Até encontrar uma boa correnteza
Que nos leve até a outra margem
E assim, empurrar 
- de novo - o barco
Andar como as nuvens andam

E acabar em chuva


Juliana Matsumura



sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Genealogia

 


(...)

Ninguém, mesmo que queira,

quer morrer. E, do mais, ficam-nos

vislumbres, pormenores, anotações

cujo sentido descobrimos demasiado tarde.


Não sei se a cultura ajuda. Preferia

a qualquer obra de Bach

que a música ambulante do amolador

pudesse de novo passar na infância,

na infância breve de estarmos ambos vivos,

sentados na varanda. À espera de dias

iguais, sob a alta sombra dos pinheiros.


Era isso.


Manuel de Freitas, Beau Séjour

 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

pradaria

Para se fazer uma pradaria
é preciso um trevo e uma abelha.
Um trevo, uma abelha 
e sonho.
Só sonho bastará, 
se as abelhas forem poucas.






Emily Dickinson

sábado, 28 de outubro de 2017

caminhada imagética

"Não confiar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em plena liberdade de movimentos."

Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

cinema

"O cinema permite-nos dar tréguas à nossa consciência da realidade e acreditar no inacreditável. É isso que o cinema nos propõe: sermos tocados pela verdade, ao mesmo tempo que sabemos que tudo é falso. (...) É, portanto, como regressar à suspensão da hierarquia entre real e imaginário que nos era permitida na infância".


quinta-feira, 6 de junho de 2013

adolescência

“Quando evocamos a nossa adolescência, descobrimos que ela é aquele período da nossa vida em que se abre entre nós e nós uma cisão. Raras vezes o adolescente consegue perceber o que é uma criança e, sobretudo, não consegue fazer a passagem da sua própria infância até onde ele está. Nesse sentido, a adolescência é a condição não rememorativa por excelência da vida humana. É a época em que a tolerância diminui drasticamente, em que nos perguntamos se a vida não é um sonho. (Esta é uma pergunta que uma criança não pode fazer, pois para ela é tudo real). E tudo nos parece vir do nada ou, pelo menos, desejaríamos que assim fosse, que tudo viesse do nada, nós próprios gostaríamos de ter vindo do nada, gostaríamos de ser autores da nossa vida. Está-se no coração de uma separação, de um desajustamento essencial às regras da sobrevivência, o que faz da adolescência a fonte de onde parecem provir todos os exercícios críticos, formas de inadaptação que podem manter-se transformadas, mais ou menos profundamente, e redimidas, mais ou menos profundamente, pela vida fora.”



domingo, 14 de outubro de 2012

"o vento sobre a terra"


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

"robar insights"

sábado, 21 de abril de 2012

"amendoeira em flor"


sábado, 7 de abril de 2012

"Memórias de Adriano"

"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros."

sexta-feira, 23 de março de 2012

"girl with leaves"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Drawing

"Desenhar acalmava-te. A tua infernal caneta era um atiçador,
era como um ferro incandescente. Os objectos
sofriam para ter uma nova realidade, torturados
até alcançarem a posição definitiva. Enquanto desenhavas
sentia-me solto, tranquilo. O tempo ficou suspenso
enquanto desenhaste o mercado de Benidorm.
Sentei-me ao pé de ti, a escrevinhar qualquer coisa.
As horas passaram a arder. Os vendedores das tendas
abeiravam-se para ver se tinham ficado bem.
Estávamos sentados nuns degraus, com os nossos sapatos de corda
e éramos felizes. A nossa curiosidade de turistas
já tinha passado, conhecíamos bem o nosso caminho
nas andanças pela cidade. Éramos familiares objectos
estranhos. Quando acabou de vender as bananas,
o vendedor ofereceu-nos um solo
de violino que tocou ali mesmo num caule de bananeira.
Toda a gente nos rodeou para elogiar o teu desenho.
Continuavas a desenhar teimosamente, captando todos os detalhes,
até aprisionares toda a cena.
Ei-la. Resgataste para sempre
a nossa manhã de outro modo perdida. A tua paciência,
mordendo o lábio e de testa franzida, conseguiu fazer o retrato
de um mercado adormecido ainda
na Idade Média. Mesmo antes de desaparecer
sob a gritaria de um milhão de veraneantes
e de um penhasco de brilhantes hotéis. Enquanto a tua mão
descia por baixo de Heptonstall para ser agarrada
pela escuridão interminável. Enquanto a minha caneta viaja
apenas a duzentas milhas da tua mão,
agarrando essa recordação do teu lenço vermelho com bolas branca,
os teus calções, a tua camisola de manga curta -
Uma das trinta que carreguei comigo pela Europa -
e as tuas longas pernas, morenas, onde apoiavas o teu bloco,
e a contemplativa calma
que eu bebia da tua concentrada quietude.
É nessa contemplativa calma
que agora bebo do teu silêncio, que nenhum
de nós pode evitar ou perturbar."

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"uma espada trespassa o coração"

..."Depois, vaguear por paisagens desertas, por cidades, pelo espaço da solidão. Não olhar o passado, apenas esse momento de silêncio e construir uma nova cidadela. Ansiar um grande vazio onde tudo é mais simples e o respirar mais vagaroso. Deixar de procurar a tempestade, que não se teme. Descansar um pouco. Repousar de tão demorada luta."


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

linha de sombra

"Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança ininterrupta e sem introspecções.
Deixamos fechado para trás das costas o portãozinho da infância... - e entramos num jardim encantado. As próprias sombras do jardim esplendem de promessa. A cada curva da vereda está uma nova sedução. E não é por se tratar de um país ainda por descobrir. Sabemos perfeitamente que toda a espécie humana tem corrido no leito desse caminho. Trata-se do encontro próprio de uma experiência universal, de que esperamos uma impressão rara ou íntima... - um pouco de nós mesmos.
Avança-se então, reconhecendo os marcos erguidos pelos que antes passaram por ali, avança-se excitado, divertido, acolhendo igualmente a boa sorte e a má - as pancadas e as carícias, como se costuma escrever -, o variegado destino comum que tantas possibilidades traz dentro de si para os que as saibam merecer ou, talvez, para aqueles a quem a fortuna sorri. E continua-se para diante. O tempo também continua para diante - até que avistamos, mergulhando mais fundo, uma linha de sombra que nos previne de que o país da adolescência terá igualmente que ser deixado para trás.
É neste período da vida que os momentos de que tenho estado a falar têm probabilidades maiores de acontecerem. Mas que momentos? Bem, momentos de tédio, de cansaço, de descontentamento. Momentos de precipitação. Quer dizer momentos em que o jovem tende ainda, por força da natureza, a praticar actos irreflectidos, como casar de um instante para o outro ou abandonar descuidadamente um lugar que ocupava sem ter motivo algum para o fazer."

sábado, 17 de dezembro de 2011

sábado, 3 de dezembro de 2011

natureza-morta com limões

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"the destroyed room"

sábado, 9 de julho de 2011

“Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.”

quinta-feira, 23 de junho de 2011

4ª lição


«Nem tudo o que é conhecível pode ser articulado de forma proporcional. Os limites do nosso conhecimento não são definidos pelos limites da nossa linguagem. No ocidente temos uma longa tradição filosófica que promove a visão de que saber algo requer uma formulação daquilo que sabemos em palavras; precisamos de ter garantias para as nossas afirmações. Mas será mesmo verdade que o que o que não podemos afirmar, não podemos conhecer? De acordo com Michel Polanyi não. Ele fala de conhecimento tácito e diz que “nós sabemos mais do que podemos dizer”. E Dewey diz-nos que enquanto a ciência declara significado, as artes expressam significado. O significado não está limitado àquilo que pode ser afirmado. Dewey continua e diz que o estético não pode ser separado do intelectual. Para que o intelectual seja completo, ele tem que carregar o selo do estético. Ter um nariz para fazer questões e um sentimento para respostas incisivas não são metáforas sem nexo. Estas ideias não expandem apenas a nossa concepção dos modos sobre os quais nós conhecemos, mas também expandem a nossa concepção de mente. Elas apontam para fronteiras cognitivas que o nosso ensino pode explorar. Como podemos ajudar os estudantes a reconhecer os modos sobre os quais nós exprimimos e recuperamos o significado, não só nas artes mas também nas ciências? Como podemos iniciá-los na arte de fazer ciência? Apesar de tudo, a prática de alguma prática, incluindo a ciência, pode ser uma arte. Na prática, é óbvio para toda a gente que nós recorremos a uma forma expressiva de dizer aquilo que a linguagem literal nunca poderia dizer. Nós construímos santuários para exprimir a nossa gratidão para com os heróis do 11 de Setembro porque, de alguma forma, achamos as nossas palavras inadequadas. Nós recorremos à poesia quando enterramos e quando casamos. Nós estabelecemos as nossas práticas religiosas mais profundas dentro de composições que nós coreografamos. O que é que a nossa necessidade de tais práticas nos diz sobre as origens do nosso conhecimento e o que significam para a forma como educamos? Num tempo em que parecemos querer empacotar a performance em grupos padronizados limitados de capacidades, questões como estas parecem-me ser especialmente importantes. Quanto mais sentirmos a pressão para padronizar, mais necessidade temos de nos lembrar daquilo que não devemos padronizar.»


terça-feira, 21 de junho de 2011

"invisible man"